Novo livro de Edgar Morin – “Meu Caminho”

Matéria disponível no site Universo do Conhecimento.

Em 22 de maio, Edgar Morin, era o convidado de honra do Espaço Ricard, galeria de Paris na qual todos os meses seu amigo Michel Maffesoli realiza o evento Convite ao Imaginário. A discussão se dava em torno do livro de Ali Aik Abdelmalek, Edgar Morin, Sociologue de la Complexité (2010). Morin não resistiu e ironizou: “Estou contente de estar aqui, nessa homenagem póstuma”.

Aos 89 anos, aquele que por certo é o pensador vivo mais importante da França desfruta de uma onda de seminários, colóquios e lançamentos de livros a seu respeito. Nos que comparece, se permite entrever que o corpo já não tem a mesma força, deixa claro que a mente está indefectível. E, ao gozar de toda sua capacidade de reflexão, Morin oferece a seus leitores e ouvintes o privilégio de fruir de sua crítica complexa e, ao mesmo tempo, de uma reconstituição autobiográfica minuciosa.

Esses dois elementos podem ser encontrados em Meu Caminho, obra fundamental para quem pretende conhecer a origem criativa do pensador da complexidade. Lançado em 2008 na França, o livro é fruto de uma série de entrevistas concedidas à jornalista Djénane Kareh Tager, especialista em arrancar depoimentos instigantes. Meu Caminho tem, sobretudo, um grande mérito: revela a gênese da obra de Morin, um conjunto de mais de 50 livros, dos quais uma dezena por certo serão lembrados pela História.

Explorar os meandros da vida pessoal do sociólogo não chega a ser um tema inédito. Ele próprio o havia feito em Vidal et les Siens (1989), no qual se refere à trágica perda da mãe, Luna, aos nove anos, e à relação contraditória que estabelece com o pai, Vidal, a partir de então. Também seu percurso intelectual já havia sido explorado em obras como Journal de Californie (1970) e Mes Démons (1994). Em Meu Caminho, entretanto, o leitor pode cruzar, em um só livro, segredos do indivíduo com os conceitos de um intelectual que vai se tornar um mito.

Não bastasse seu valor documental, Meu Caminho é delicioso. Morin se mostra à vontade, desarmado, pronto a revisar seu percurso com um olhar crítico aguçado sobre si mesmo, mas com imensa ternura. O capítulo sobre Luna, que abre a narrativa, revela que o adulto que recusou os maniqueísmos e as metanarrativas se forjou a partir de um menino inconformado pela perda precoce e vitimado pela amargura dos sonhos com a mãe. “Desde então, até hoje e até o dia de minha morte, a cada lua cheia no céu, murmuro o canto sagrado Casta Diva, a ela (a lua) dedicado na ópera Norma”, conta, compartilhando a dor não superada.

A desenvoltura de Morin nos permite descobrir seu parto in extremis, quando se aproximou da morte ao ser estrangulado pelo cordão umbilical. “Desse nascimento, conservo um sentimento de sufocação que por vezes toma conta de mim”, diz. O passar das páginas permite associar os fatos de sua infância e juventude às suas obsessões de homem maduro. Assim, como se o testemunho fosse uma referência permanente à interdisciplinaridade preconizada pela série O Método (1977-2004), o leitor é levado a estabelecer os vínculos entre o parto de alto risco e seu mergulho na resistência francesa, quando arriscara a vida para libertar a Europa, ou na elaboração de O Homem e a Morte (1957), que considera sua obra “mais significativa”.

É saboroso descobrir que livros acessíveis a todos nós, como Ressurreição, de Tolstoi, e Crime e Castigo, de Dostoievski, foram textos cruciais em sua vida, capazes de formar o ethos de um intelectual respeitado em todo o mundo. “Ceticismo e fé não cessaram de se combater e combinar em mim; eles são simultaneamente antagônicos e complementares”, explica.

Por outro lado, tão fascinante como a vida pessoal é descobrir, uma a uma, a origem de seus livros, desde O Ano Zero da Alemanha (1946), seu primeiro trabalho. Sem falar de seus encontros e desencontros, que vão dos puramente imateriais, que tivera com filósofos como Hegel e Marx, aos físicos, que vivera com Heidegger ou Bourdieu. Em Meu Caminho, Morin lança luzes sobre sua estrada e reitera a seus leitores a força da ética, da autocrítica, da razão sensível, da coerência, da convicção pessoal na formação de um pensador irrepreensível. Diz ele, elucidando sua humildade: “Quando os filósofos descem de sua torre de marfim ou os cientistas transpõem os limites de seu campo de ação especializado para defender ideias de valor cívico, social ou político, convertem-se em intelectuais”

Fonte: O Estado de S. Paulo

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